A transformação social que buscamos é coletiva, mas o despertar para dar a nossa contribuição: É individual!

Estamos caminhando para um século de serviço social no Brasil, em 2020 a profissão completa 84 anos de existência, sendo regida pela Lei Federal 8.662/1993 e contando com 190.815 mil profissionais ativos, registrados nos 27 Conselhos Regionais e 01 Federal do Serviço Social (CFESS, 2019[1]).

O Serviço Social chegou ao Brasil na década de 30, após a pandemia de 1918 (gripe espanhola) em um cenário que já apontava as condições de desigualdade social, má nutrição e falta de saneamento básico como fatores extremamente agravantes na construção social.

 No primeiro momento a atuação profissional se dava a partir de uma base sanitarista e moralista, considerando a vulnerabilidade social como incapacidade, a pobreza como um problema e não como resultante de uma formação social elitista e injusta.

Nessas oito décadas o contexto de desigualdades sociais se acirrou, e chegamos a 2020 com mais de 23 milhões de pessoas sem renda, 11,4 milhões de pessoas em todo o país morando em assentamentos irregulares, como favelas, comunidades de baixa renda, ocupações (IBGE,2010). 

Uma conjuntura na qual, a questão social se expressa na questão urbana, em um cenário de gestão conservadora explicitado nas proposições de contrarreformas, desemprego crescente, criminalização da questão social, todo tipo de preconceito que dissemina a naturalização das desigualdades sociais viola constantemente os direitos humanos.

E, sem entrar na discussão de outras dimensões de iniquidades e injustiças sociais que se dão na gestão das diversas políticas públicas e sociais, estamos atravessando uma crise sanitária, somada a uma crise econômica e uma crise de valores. E onde entra a nossa profissão e a missão do serviço social nessa equação?

O propósito da nossa profissão está intrinsecamente ligado a defesa do reconhecimento de cada pessoa como sujeito de direitos, e, portanto, na busca por garantia de acesso aos direitos sociais e políticas públicas. No entanto, nosso maior desafio ainda é, levar esse projeto ético político emancipatório para a prática diária, acumulamos, desde a criação da profissão, um forte arcabouço teórico reflexivo e chegou o momento de enfrentarmos as questões para sua viabilização na dimensão técnico operativa e metodológica.

Mas para isso precisamos refletir sobre muitas questões que são no mínimo delicadas, do ponto de vista global, a profissão não tem reconhecimento econômico compatível com as atividades e profissões. Apesar da legislação sobre carga horária e autonomia na dimensão técnica operativa no cumprimento do nosso código de ética, sabemos que poucas organizações respeitam as normativas.

Pelo contrário, muitas organizações além de não cumprirem as normativas ainda pressionam por um trabalho tecnicista, produtivista e mesmo competitivo para atender aos interesses do mercado.

Será que nos adaptamos esse capitalismo cognitivo dos belos discursos e práticas dissonantes?

Os conflitos e contradições se expressam também nas arenas de diálogos da categoria, muitas são as críticas à atuação dos órgãos de classe e sua relação verticalizada com a base, e o afastamento crescente do atendimento às demandas do coletivo. Não quero entrar em julgamentos, com o advento da internet e um acesso maior para trocas e diálogos, há muitas possibilidades para uma ação mais articulada, o que me dá esperanças.

Nas minhas “andanças” que hoje são virtuais, ouço uma narrativa dos porquês de na pratica a teoria ser outra, justificada em diversas questões, como a competitividade, a falta de solidariedade e união da categoria, a necessidade de cumprir os roteiros para garantia da remuneração (considerando a baixa fiscalização sobre o empregador), a corrupção na execução das políticas, a confiança quebrada após participar de mobilizações/movimentos nos quais em um dado momento os resultados foram capturados para interesses políticos de grupos específicos, enfim tem muito mais, mas não vem ao caso.

Quero destacar o fato de enfrentarmos esse cenário político, e mais um mercado de trabalho que em seus campos de atuação, demanda cada vez mais qualificações, especialidades, uso de tecnologias, metas e resultados.

Acredito que devemos fazer um exercício de ler esse cenário global, mas que é tempo de começar a compreender qual a nossa parcela de responsabilidade, do meu ponto de vista a crise sanitária e econômica é a maior expressão da crise de VALORES que atravessamos na nossa sociedade, dessa adaptação ao sistema capitalista cognitivo (do discurso).

A transformação social que buscamos é coletiva, mas o despertar para dar a nossa contribuição: é individual! E ela deve começar pelo processo de individuação, então reflita:

Quais são os seus valores?

Como você prática seus valores diariamente?

Você usa mais tempo justificando os porquês de não agir, ou investe seu tempo buscando formas, pontes, conexões para ação concreta?

Você usa mais tempo para reclamar dos colegas e encontrar as falhas do trabalho alheio, ou investe seu tempo fazendo seu trabalho com maestria e contribuindo com os colegas no que eles precisam melhorar?

Você tem usado a maior parte do seu tempo seguindo um político, um movimento, uma bandeira que possa mudar o mundo, ou você tem investido a maior parte do seu tempo para lapidar suas habilidades e fazer sua parte na construção da transformação social de baixo para cima?

Você consegue imaginar o que pode acontecer na nossa sociedade, se cada um de nós começarmos nosso processo de individuação e reflexão sobre nossos conflitos interpessoais, com colegas e instituições e o que isso reflete nas nossas ações de cada dia?

Possivelmente, essa clareza nos ajude a construir uma ponte entre os valores que defendemos e a ação prática, e então poderemos começar a verdadeiramente sermos a mudança que queremos no mundo!


[1] Relatório Integrado da Gestão CFESS/2019