Ação Social: você escolhe a direção!

Ação Social, segundo Max Weber: “Significa uma ação que quanto ao sentido visado pelo agente ou os agentes, se refere ao comportamento de outros, orientando-se por este em seu curso”(Weber, 1991, p.3), o autor formulou quatro tipos de ação social, a ação social racional com relação a fins, pautada na responsabilidade, por exemplo aquela do nosso código de trânsito, a ação racional com relação a valores, aquela que é movida por princípios e valores e não pelo resultado que se precisa alcançar, a ação social afetiva, aquela que se orienta por sentimentos motivadores positivos ou não, e a ação social tradicional que é a repetição de hábitos e costumes, a tradição.

Fim da parte conceitual! com a licença de Weber, eu ousadamente organizo esses quatro tipos de ação em duas direções divergentes, a ação social voltada para a transformação social e a ação social de manutenção e reprodução do sistema.

As ações racionais com relação a fins, e as ações tradicionais, estão na direção da reprodução do sistema, as ações com relações estritas a fins, se fariam desnecessárias caso tivéssemos um sociedade movida por valores. Por exemplo, você não estacionaria em uma vaga de idoso só para não tomar multa, você não estacionaria por saber que não é idoso, e, portanto, aquela vaga não pode ser ocupada por você. E as ações tradicionais em si, é a reprodução das condutas do nosso legado sócio histórico que representa o conservadorismo, a desigualdade social, o racismo, o machismo etc.

No campo da transformação social a ação racional a partir de valores, são as que alicerçam o campo da justiça social, são as ações sociais pautadas na convicção e ética, independente de resultados financeiros, número de votos, ou qualquer compensação que não seja a conduta em prol do projeto ético que se defende para o coletivo.

E quanto a ação que se orienta por sentimentos motivadores, estou mantendo no campo da transformação, com ressalvas, compreendendo que as emoções nos mobiliza, nossa paixão, nos conecta com movimentos e projetos sociais, no entanto sabemos que ódio tem sido também um potente fator de mobilização em tornos de projetos conservadores.

E falando em projeto conservador, estamos assistindo essa investida desesperada de gerar mais conflitos e caos na humanidade, já que as ações sociais tradicionais e para os fins, tem tido sua “eficácia” cada vez mais questionada. No campo da disputa política por um projeto de Estado, aquela forma de organização pautada pela revolta e por relações de dependência (mesmo no seio dos movimentos sociais) que sempre resulta em algumas concessões, via balcão de negócios, está se esvaindo….

Após décadas de muitas narrativas e ações contraditórias e ou desarticuladas do projeto ético, as mobilizações sociais que estão surgindo, ou se reorganizando já trazem algumas características, de rompimento com esse paradigma de submissão e manipulação em todos os níveis. Tenho acompanhado alguns movimentos, e vejo ações sociais que eram exceções se tornarem comuns. Como a partilha pública de informações sobre os diálogos com poder público e políticos, o envolvimento e a discussão de propostas e encaminhamentos em coletivos, a transparência na gestão de recursos das organizações, o respeito a todas as afiliações (partidos, bandeiras) existentes no território/grupo, e o convite para diálogo e tomadas de decisões sobre as pautas coletivas do território.

A cada dia surgem novas mobilizações, em defesa da cultura, da vida, da educação, dos direitos civis etc., finalmente entendemos que já se passaram 100 anos de promessas de um projeto de nação, que não sai do discurso da contradição, dos dramas e tramas políticos. Emergem mobilizações com uma agenda que convida para o protagonismo, ações colaborativas, dialogadas, libertárias, sustentáveis, transparentes, responsáveis… Para quem está chegando nessas ações coletivas, pode estar vivenciando um verdadeiro tsunami para lidar com nossa usual falta de atenção com aquilo que “já sabemos”(ação tradicional pautada no habito), nossa dificuldade de escutar (ação para um fim), em ser objetivo ao falar (ação pautada nas emoções), em ser colaborativo, cooperativo (ação pautada nos princípios, valores e ética).

Então, reafirmo que as ações voltadas para a transformação social, tem potencial de estruturar mudanças, são condutas construídas a partir de processos democráticos e ou sociocráticos, estão voltadas para o enfrentamento das vulnerabilidades sociais, tendo como eixo central uma economia redistributiva (não há como se ter conformidade com um sistema em que 26 bilionários possuem 50% do capital da população mundial (Oxfam), a valorização da vida, o respeito aos direitos humanos etc.

E cada um de nós? Acredito que nossa principal tarefa é centrar nossas energias na ação social consciente, orientada para o coletivo, podemos começar separando o lixo, acolhendo melhor as pessoas no nosso trabalho, consumindo de pequenos produtores, não votando em políticos corruptos, não alimentando a política do ódio, se posicionando na garantia dos direitos de qualquer cidadão, participando de coletivos que as bandeiras nos inspirem, começando um movimento, apoiando um movimento, enfim a escolha é: ou atuamos para transformação social ou atuamos como fator de manutenção e reprodução do sistema, não dá para ficar em cima do muro.