AtuAção Social na Era Digital – Mudanças que chegaram para ficar!

Após trezes meses enfrentando a crise pandêmica e vivenciando a aceleração da modernização tecnológica, o século 21 conta a que veio em meio ao caos, às perdas, às mudanças na forma de morar, trabalhar, socializar e ao aumento exponencial das desigualdades sociais e da pobreza, e é nesse cenário que nós profissionais que atuamos na área social estamos buscando nos situar.

Sobre o vírus, muitos cientistas apontam para um longo caminho de prevenção que pode durar anos, com chegadas de novos vírus e bolsões de transmissões, que dependem em parte, da forma com a qual estamos lidando com o momento atual. Em outros momentos indiquei leituras como: A Cruel Pedagogia do Vírus (Boaventura Souza Santos), Ideias para adiar o fim do mundo (Krenac), vou deixar os links desses materiais ao final desse texto.

Diante desse cenário muitas das excepcionalidades geradas pelo coronavírus, já se tornaram facilidades da vida moderna, inclusive no nosso trabalho, na área social, temos realizado reuniões de trabalho entre equipe, gestores e parceiros no formato online e muitos dos nossos canais de comunicação com a população como o plantão social e acolhimento que até um ano atras eram quase sempre presenciais, se tornaram online.

Alguns projetos sociais passaram a desenvolver atividades online para acompanhamento dos grupos e populações envolvidas, o atendimento ou acompanhamento presencial, com todos os protocolos, passou a ser realizado quando há necessidade de entrevistas para encaminhamentos em algumas políticas sociais ou para coleta de documentos, junto a pessoas e famílias que não tem acesso as tecnologias e internet, ou por exclusão digital, exclusão social, ou as duas juntas.

Obviamente que todas essas mudanças mesmo que se consolidem como facilidades, nesse momento tem sido extremamente estressante, pois está interferindo em todo nosso comportamento cotidiano, além de todos os cuidados e protocolos, temos que trazer para o digital de um dia para outro, tudo que era analógico, digamos assim.

Tenho notado que não nos sabemos lidar ainda com o relógio no mundo digital, o que tem gerado alto nível de ansiedade e stress, quando terminamos uma atividade, precisamos elaborar um relato para a complementação da equipe, ou entrar no arquivo coletivo para complementar, e ao mesmo tempo estamos recebendo mil outras mensagens de outras questões, problemas, atividades, etc., o que gera sempre uma sensação de atraso, de não acompanhar o tempo acelerado da internet, sensação de não sermos ágeis como as máquinas, e que isso é algo negativo. Estamos experimentando, e há muito que aprender para compreendermos nossas capacidades e limites de atuação nesse ambiente virtual.

De qualquer forma muitas das mudanças positivas ou negativas vieram para ficar, o cidadão que hoje tem resposta do técnico social pelos canais online, dificilmente vai querer voltar a ter deslocamento e esperar um atendimento no plantão presencial. Da mesma forma, imagino que nós mesmos vamos optar por manter algumas atividades online, como reuniões de planejamento que usando alguns aplicativos nos proporciona uma visão ampliada das propostas de todos ao mesmo tempo e as propostas coletivas podem ser construídas com fluidez e em menor tempo.

Uma vez que entendermos que essas mudanças vieram para ficar, vamos conseguir repensar nossas metodologias, as tecnologias sociais, e nossos instrumentais para que a nossa atuação social possa seguir viabilizando o acesso à direitos sociais e fortalecendo coletivos.

A partir de nossa interlocução com profissionais da área social aqui no Projeto Multiplicação Social, apresento alguns impactos iniciais e reflexos na nossa ação cotidiana.

  1. Diante dos protocolos de saúde e segurança o acompanhamento via telefone e internet das populações envolvidas em programas e projetos sociais passa a ser cada vez mais constante, juntando-se a questão social o problema da exclusão digital, assim essa leitura do acesso aos meios digitais passa a fazer parte do diagnóstico socioterritorial como base para definição de ações;
  2. O trabalho em casa, ou no formato híbrido chegou para ficar, no momento estamos nos habituando com as plataformas de encontro online e uso cada vez mais constante de e-mail e whats, estamos adaptando instrumentais para o formato online e aprendendo a organizar informações em nuvens compartilhadas, precisaremos em breve dominar aplicativos de planejamento e acompanhamento das atividades da equipe, projeto, programa, política etc.
  3. Se por um lado podemos pensar um futuro com informações mais fluidas e transparência no desenvolvimento e gestão de programas e projetos, há um grande stress em fazer essa mudança de forma tão acelerada, e há muitas questões em aberto, por exemplo, ainda não temos clareza de como atenderemos as questões éticas como sigilo de informações, no atendimento em plataformas digitais e arquivamento de informações em nuvens.
  4. Será preciso repensar as ações sociais em todos programas e projetos, redirecionar os custos, reprogramar ações,  por exemplo, as atividades com grupos de risco passam a ser online e é preciso viabilizar o acesso à internet e desenvolver atividades de capacitação para que esse publico possa usar as ferramentas básicas das tecnologias;
  5. No âmbito das atividades de geração de renda considerando a tendencia do “fique em casa” e de que as pessoas estarão mais presentes no territórios que moram, é preciso elaborar estratégias voltadas ao fortalecimento da prestação de serviços e comércios locais por meio de uso das redes, criação de páginas do bairro para dar publicidade de forma coletiva e mesmo fortalecer as relações de vizinhanças e de solidariedade local, capacitação dos comerciantes e ambulantes para uso das redes, estratégias de gestão da página local, e outras ações de inclusão digital;
  6. O formato de comunicação social tradicional utilizado até esse momento está ficando obsoleto, antes fazíamos reuniões e divulgávamos nos grupos ou territórios (usando cartazes, folders, carro de som), quem participava recebia a informação e repassava a partir do seu ponto de entendimento, para as pessoas com quem tinha relações. Agora com o uso da internet, cartilhas, vídeos, folders e cards digitais se propagam para o grupo ou território como um todo e ao mesmo tempo, e as reuniões online podem ser gravadas para acesso posterior de quem não pode participar naquele momento, as informações não são mais repassadas por representantes e lideranças a partir de seus conhecimentos e interesses pessoais e políticos,  tanto no teor, quanto na seleção da pessoas receptoras de informações, é uma capilaridade que nunca vimos antes e irá refletir nas relações de poder e domínio de informações, estamos desenvolvendo estratégias iniciais na adaptação das atividades em curso, mas, temos uma longa jornada pela frente;
  7.  No âmbito das articulações Inter, Multi e Pluridisciplinar as trocas com os profissionais de comunicação social e do marketing digital serão necessárias para elaboração de materiais de comunicação social objetivos, com informações claras e graficamente interessantes;
  8. Nas políticas públicas além da assistência social para o atendimento dos reflexos das desigualdade social e urbana que não param de crescer com a pandemia, e o campo da saúde que certamente precisará de um grande aporte de recursos e programas, se evidencia a necessidade de programas de habitação de interesse social e saneamento, como uma medida essencial para prevenção sanitária das cidades, campos de atuação que tendem a crescer e demandar conhecimentos das políticas e estratégias efetivas de atuação social com formato hibrido ou totalmente online;
  9. Ainda na política de Assistência Social, no campo do atendimento psicossocial as demandas tendem a continuar aumentando exponencialmente, com maior tempo de convivência em espaços inadequados (número de cômodos, insalubridade, falta de privacidade) os conflitos familiares e casos de violência doméstica tendem a crescer, a necessidade de interface entre programas de saúde, assistência social, habitação e outros, somada ao uso das redes,  vai possibilitar uma outra forma de operacionalização das políticas públicas, com cadastros articulados, compartilhamento de informações, acompanhamento dos encaminhamentos para viabilização dos diversos direitos, de forma virtual e transparente, diminuindo espaços do caos e desorganização das informações, que são base para manutenção das relações de dependências e todos os tipos de esquemas ilegais na distribuição de recursos públicos. 

Embora o cenário atual estimule o individualismo e mais segregação social, ele também traz o viés da cooperação Inter, Pluri, Multidisciplinar, da formação de redes de colaboração de profissionais que defendem boas práticas e redes de solidariedade unindo pessoas e organizações. Aponta também a possibilidade de um futuro com respostas/atendimento céleres a população nas diversas políticas sociais. E na dimensão da mobilização social, a atuação para o fortalecimento das populações vulneráveis contará com fluidez de informações qualificadas e capilaridade da comunicação social, são muitas perspectivas a serem dialogadas e construídas.

Enfim, em meio a essa efervescência de crises social, econômica, política e sanitária, as mudanças continuarão ocorrendo e muitos dos ajustes metodológicos e operacionais que chegaram como algo excepcional e ou temporário, deverão ser revisados antes de sua consolidação. E certamente dialogaremos sobre a reformulação do pensamento na atuação no trabalho social, para que possamos seguir quebrando paradigmas frente aos desafios da era digital e instrumental tecnológico.

Dicas de Leituras:

https://www.cidadessaudaveis.org.br/cepedoc/wp-content/uploads/2020/04/Livro-Boaventura-A-pedagogia-do-virus.pdf