Compreender a beleza da construção coletiva, passa por aprender a perder com alegria suas posições individuais.

Falamos em autogestão, autonomia, construção coletiva, sonhamos em viver em uma sociedade com valores da equidade social, ao tempo em que temos nossas posições individuais marcadas por nossos saberes, nossas experiências, nosso meio ambiente. Cada indivíduo é único e dá sua contribuição para a construção da sociedade ciente disso ou não.

Falar em construção coletiva requer olhar em muitas dimensões, muitas vezes estamos com o discurso tão decorado que esquecemos que no final a ação é o que faz a diferença, por que é na ação que conseguimos saber se é discurso pela beleza do discurso, ou para enfrentar os desafios da construção coletiva.  Permitam – me ser direta, de bons discursos e boas intenções o cemitério está cheio.

A questão primordial para atuar em coletivos é estar conectado ao projeto, se identificar com valores e objetivos, ter satisfação pessoal em ser parte do projeto.

Vamos olhar algumas dimensões para nossa reflexão;

1 – Como eu vejo o outro:

Ao falarmos de construção coletiva, temos que considerar o nosso relacionamento com as outras pessoas. Todo julgamento parte de nossas peculiaridades individuais, que vem de nossas experiencias e nossa vontade de controlar para que o outro repita ou não certas situações. E certamente há boas intenções em quer evitar o sofrimento do outro, mesmo sabendo que não possui governabilidade nenhuma nas escolhas pessoais alheias.

Então em um grupo sempre haverá pessoas com as quais a gente se conecta mais facilmente, e pessoas que a gente tem dificuldade de compreender o posicionamento, terão pessoas com filosofias políticas e religiosas diferentes. Eu garanto que cada uma das pessoas de um grupo tem razão no que defendem a partir de sua experiência de vida. A questão, não é buscar se relacionar somente com quem temos facilidade, e sim aprender a respeitar todas as posições, compreendendo que cada um é um mundo, e só o fato de se disponibilizar em dialogar com outros mundos já é transformador!

2 – Como eu me vejo no grupo:

Aqui eu vou falar de mim e quatro momentos da minha vida para dar o exemplo direto.

Por um tempo me via como a recém chegada, jovem que devia buscar ouvir o máximo possível e falar o menos possível, evitando “falar besteiras”. Então nos diálogos coletivos, interagia para fazer perguntas, aprender, mas quase sempre guardava minhas ideias para mim mesma, pois não havia sentido “ensinar missa ao vigário”.

Depois veio uma época de superação, comecei a participar das atividades coletivas, falar minhas ideias e posições, sempre de forma sucinta, pois é um aspecto do meu perfil pessoal ser direta, e considero desrespeito falação e repetições desnecessárias.

Nos últimos anos, estava consolidada como profissional, com vários títulos universitários, e com a experiência e resultados obtidos, conseguia vislumbrar o antes, o durante e o depois de um projeto, e era muito firme no meu posicionamento.  Foi uma época na qual aprendi o que é ser coordenadora, ser responsável pelos bônus e ônus das ações de um projeto, naquele tempo eu acreditava na construção coletiva somente em um eco vila afastada de tudo.

Chegamos ao agora, participo de alguns coletivos, e sempre chego cheia de ideias, e quando começamos a dialogar e ver os outros pontos de vista, é um grande aprendizado, e toda vez que pactuamos alguma coisa, mesmo que a minha ideia original tenha se perdido, me sinto ganhadora de algo muito maior do que fazer valer minha opinião. Me sinto de verdade sendo agente da construção coletiva, sinto alegria em compartilhar decisões e vejo que as ações fruto dessas construções são inclusivas, são verdadeiras, são transformadoras.

E sim é um monte de gente que pensa diferente, torce por time diferente, tem religião diferente, mas que decidem participar de uma construção coletiva e respeitar todos os pactos do grupo, tem sido uma rica experiência. Detalhe: Não mudei de coletivos, amadureci minha forma de atuar.

Minhas Dicas:

1 – Participe de coletivos que se alinham com seus valores pessoais, não tente mudar os valores de outras pessoas ou instituições, estará nadando contra a maré, enquanto poderia estar contribuindo para transformação social em grupos com os quais se identifica;

2 – Entenda que do mesmo jeito “ que toda forma de amor vale a pena”, todos os coletivos mesmo aqueles com os quais discordamos em absoluto, se tratam de um grupo de cidadãos com direito de dialogar sobre seus valores, não precisamos investir nosso tempo em conflitos com o que discordamos, podemos focar nossas ações em fazer crescer aquilo que buscamos. Há muito mais força na construção coletiva em torno da transformação social, porque se trata de pessoas integradas com interesses comuns reais, pode pesquisar os movimentos modinha, não duram, então não vale nosso tempo dar ibope para certos conflitos;

3– Fazer valer as decisões do grupo, independente de fatores externos. É uma das coisas mais difíceis, pois tendemos a colocar nossas ações em prol dos nossos interesses individuais o tempo todo, então temos que treinar, treinar cumprir os acordos de horário, treinar cumprir os acordos de responsabilidades nas atividades, treinar defender o que foi pactuado em conjunto. Sem discussões paralelas de insatisfações, sem tentar buscar meios de garantir nossas ideias de alguma forma na hora da execução das tarefas, enfim, sem boicotar o que está se tentando construir mesmo cheio de boas intenções. Faça sempre a pergunta: Essa ação que vou fazer está de acordo com o que foi pactuado no grupo? – outra dica: quando precisa perguntar, em geral, é porque não está! Quando estamos conectados com um projeto temos maior facilidade de agir em conformidade;

4 – Se mudar de ideia quanto aos seus posicionamentos ou responsabilidades, seja claro e transparente de forma a permitir que as atividades continuem sem você.