Guerra de futuros: Arranjos, Rearranjos e Disputas na Construção Social

“Nenhum poder na terra, é capaz de deter um povo oprimido, determinado a conquistar sua liberdade” Nelson Mandela

Escrevo esse ensaio como um exercício de organizar minhas ideias sobre o cenário atual e quem sabe contribuir com outras reflexões de vocês. Desde março nossa vida tem sido um turbilhão, a combinação de crises econômica, sanitária e de valores acelerou o mundo, e em nome da vida, vimos muitas coisas mudarem radicalmente em questões de semanas, de repente coisas que antes eram tidas como impossíveis se tornaram possíveis.

Nos vemos agora, entre aproveitar uma janela de oportunidades e quebrar paradigmas no enfrentamento desse sistema predatório, ou, aderir ao rearranjo “novo normal” que as grandes corporações já preparam, para sermos mais produtivos e mais controlados.

Sabemos que institivamente o desconhecido é sempre assustador, de qualquer forma eu preciso te perguntar, você já parou para refletir como seria uma construção social sem a desigualdade social?  Temos lutado essa guerra por uma sociedade justa há décadas, hoje quando olho a inclusão dos direitos nas legislações, mesmo sabendo que o mercado se movimenta  rapidamente para transformar as políticas públicas em fontes lucrativas, vejo que toda essa trajetória que envolveu, sangue, suor e lágrimas, resultou em tratados para a construção de um mundo melhor, estamos no limiar de grandes mudanças e eu acredito que temos potencial para romper muitos dos paradigmas vigentes. 

Bom, se você ainda não refletiu sobre as mudanças e quebra de paradigmas para a mudança desse cenário, é um bom momento para fazê-lo. Como a desinformação é o princípio de toda a dominação, vamos começar nos informando sobre esse cenário sombrio e assustador, ressalto que não sou expert em temas que vou abordar aqui, mas há muito material de pesquisa acessível para quem se interessar, vou deixar umas indicações ao final desse texto.

Assistimos na política nacional e internacional um rápido avanço do projeto político conservador e antidemocrático, com incentivo a violência e ao ódio para favorecer interesses privatistas em detrimento das liberdades individuais e coletivas.

Quanto a distribuição de renda, nas palavras de Eliane Brum “Hoje, apenas 2.153 pessoas –concentram mais riqueza material do que 60% dos outros 7.790.000.000 bilhões de seres humanos que habitam o planeta. Veja a diferença no número de casas decimais. Eles representam uma fração tão insignificante no conjunto da população global que os números falham em torná-los visíveis como porcentagem. A desigualdade racial, social, de gênero e de espécie que provocam, porém, é brutalmente visível.”  Plataforma #libereofuturo.

O processo de financeirização dessa Elite que está em curso e que transforma direitos em mercadorias, não é um tema simples de entender, pelo que compreendi até agora a financeirização não corresponde ao sistema bancário tradicional, o banco vende dinheiro a juros e quer atender e ampliar a clientela, tem um caráter comercial, a financeirização é uma forma de extrair riquezas da sociedade, é a especulação de todo tipo de itens, é feito por algoritmos matemáticos,  e os únicos clientes que importam são os muito ricos, então não há problemas em prejudicar famílias, bancos, empresas, governos locais, etc.

Agora para esse sistema existir, ele precisa que a produção e os bens existam, então, mesmo um prédio vazio, lastreado e ativo está gerando lucro, assistimos em 2008 a crise imobiliária nos EUA, na qual muitas famílias foram a falência, perderam suas casas, mas parte das organizações extraíram riquezas da crise e seguiram em frente. Além da financeirização da moradia, que já chegou ao Brasil com o programa Casa Verde e amarela, a previdência também tem estado na mira, as reformas previdenciárias e a transferência dos fundos de pensões para esse mercado tem gerado perdas para os aposentados em vários países, ao tempo em que as organizações que administram enriquecem rapidamente.

Vai muito além de corrupção, a manipulação é língua desse sistema, podem por exemplo retirar produtos de circulação do mercado para aumentar valor, ou até criar grandes crises para vender as soluções. Então se do ponto de vista macro, manipulam a economia e os recursos naturais e materiais, e portanto, a política, no nível pessoal, com a mídia a serviço de controlar as grandes massas, geram a ideia da escassez de trabalho e de recursos, tensionando a sociedade para o individualismo, endividamento, corrupção, competição e violência.

Agora eu preciso dizer que dentro desse mesmo mundo globalizado, também estão acontecendo coisas boas, e grandes descobertas e projetos para o próximo estágio da consciência humana (caso esse futuro vença), no qual reconheçamos a individuação como o caminho para enfrentar a dissonância cognitiva e aprender a viver de acordo com nossos princípios éticos e em ambientes sustentáveis. No elogio à metamorfose Edgar Morin afirma que, nas crises planetárias ao mesmo tempo em temos que forças regressivas e desintegradoras, se despertam as forças criadoras da humanidade. Podemos também referenciar isso nas leis da física, a terceira lei de Newton diz que “a toda ação sempre há uma reação de mesma intensidade e direção, porém sentidos opostos.” Então, podemos estar nesse momento histórico, no limiar de mudanças, com duas forças antagônicas muito perto de um choque, um desfecho.

Há muitas coisas acontecendo para mudanças estruturais na sociedade e no meio ambiente, vou dar alguns poucos exemplos, você sabia que a energia solar e outras formas de energia que dispensam o petróleo já são possíveis de serem implantadas? O carro elétrico já chegou no Brasil, mostrando que a substituição do diesel por energia elétrica renovável é possível. Sabemos que o controle das reservas de petróleo é um dos principais motivos das grandes guerras, e que as energias “limpas” e ou renováveis são mais acessíveis e mais baratas, não há nenhum interesse das elites em financiar esse modelo, que além de tudo preserva o meio ambiente, mas ele tem ganhado espaço no mundo.

Você sabia que a construção de casas por meio da tecnologia da impressora 3D já é uma realidade, e que essa tecnologia elimina etapas do processo reduzindo tempo e custos? A primeira impressora 3D para construção civil no Brasil, é resultado de pesquisa de um grupo de estudantes (2015), que atualmente possuem uma startup testando as tecnologias e custos, apesar do posicionamento do mercado da construção civil ser claro, de que não viável poque não gera muito emprego e ainda não tem escala, as pesquisas e testes continuam.

Você sabia que muitas organizações, estão desenvolvendo e implementando práticas pautadas na sustentabilidade, responsabilidade social, governança, compliance? Preciso dizer, que esses processos, ainda encontram muita resistência nas direções e gestões, pois o envolvimento dos trabalhadores das organizações nos processos de tomada de decisões, e a transparência do uso de recursos em programas e projetos, requer rompimentos com o legado patriarcal da nossa sociedade, mas a pressão é crescente para que esses enunciados sejam cumpridos à risca. Há também conceitos mais arrojados como autogestão, integralidade, proposito evolutivo, já ouviu falar nas Organizações Evolutivo – TEAL?

Já ouviu falar do computador quântico capaz de resolver problemas complexos que um super computador levaria 10 mil anos, em segundos? Não temos como mensurar as mudanças que essa tecnologia trará em breve, provavelmente a humanidade vai passar para um novo patamar no desenvolvimento civilizatório ou predatório…

Eu não pesquisei os avanços no campo da saúde e em outras frentes, mas li um pouco sobre a nova Medicina Germânica, que conduz uma entusiasta lida contra os abusos da indústria farmacêutica mundial, e sou capaz de apostar que devem ter pesquisas avançadíssimas e muitas soluções encontradas que podem revolucionar a qualidade de vida da humanidade e o meio ambiente.

No campo das agendas globais em prol da justiça social, sei há muitos movimento nacionais e internacionais em prol da construção de uma sociedade mais justa,  quero destacar os 17 objetivos para transformar o mundo da Organização das Nações Unidas – ONU, e a infinidade de iniciativas e projetos conectados a esses objetivos espalhados pelo mundo, sem ingenuidades, sabemos que os princípios da  democracia, direitos humanos, paz, solidariedade, nem sempre são respeitados pelas organizações que acessam os recursos disponíveis, mas precisamos não confundir a captura do enunciado por interesses privados com as organizações em si.

Aliás, vou aproveitar o momento,  para repetir que a falta de valores humanos, de ética e de caráter, do meu ponto de vista, é o que propicia, por exemplo que os recursos  do Banco Mundial sejam empregados parar na construção de uma fábrica de geleia no recôncavo da Bahia, que não atende a comunidade local e por isso não é utilizada. Ou que os recursos da Organização dos Estados Americanos – OEA sejam investidos em estudos e pesquisas para a melhoria da gestão ambiental urbana no Brasil e os resultados da pesquisa não se tornarem públicos. Ou chegando mais perto do nosso dia a dia, que vejamos gestores usando recursos de forma inadequada, lideranças de movimentos sociais se apropriando de projetos para interesses partidários, ONGs de fachada, e muitas outras iniquidades que precisaria de muitas páginas para enumerar.

Bom, não está sendo simples fazer essa reflexão, e tenho a sensação que há muitas coisas a serem pensadas e repensadas, em síntese, é como se estivéssemos em uma arena, nos 45 minutos do segundo tempo do jogo, sofrendo a ofensiva derradeira do adversário, que vendo o placar no empate, investe tudo que tem para marcar seu gol. Crises, terror, medo, dívidas, desemprego, exclusão, incentivo ao ódio e a violência, mas o nosso time está mantendo a defesa firme mobilizada na construção de outro mundo a partir dos tratados que foram bravamente constituídos e uma série de mobilizações pela diversidade, pluralidade e liberdade, então, precisamos nos manter firmes.

No Brasil, eu sei que estamos em um momento político crítico e sem uma agenda para enfrentamento das desigualdades sociais (só agenda de contrarreformas), mas também vejo uma onda crescente pessoas e organizações se posicionando e reposicionando movimentos como liberte o futuro, reforma tributária solidária, reforma urbana, redes de solidariedade, movimentos de defesa de direitos humanos, da diversidade, da pluralidade, da liberdade, da democracia, da paz, da liberdade individual e coletiva, enfim, muitas e muitas mobilizações acontecendo por todo país.

São muitas as propostas e caminhos para quebrarmos os paradigmas vigentes, e como tenho dito a mudança é coletiva, mas o despertar é individual, pois precisamos das capacidades de todos para esse enfrentamento, então, aqui vai umas dicas: reflita sobre as mudanças que você deseja no mundo, o que é  respeito, democracia, cultura de paz, liberdades individuais e coletivas para você? Duvide das informações que estão na mídia, estude, se informe, se mobilize, faça a sua parte onde estiver, com os recursos que possuir, isso é atuar concretamente e em rede, e saiba que como eu e você há milhares de outras pessoas engajadas nesse rompimento de paradigmas, cada um em sua área de atuação, cidade, país, cada um com suas responsabilidades, mas todes atuando em rede no desenho de uma nova sociedade.

Dicas de leitura e filmes

Financeirização e Dominação

Filme: Margem call: O dia antes do Fim, 2011

A ditadura financeira e as metrópoles cercadas – https://outraspalavras.net/mercadovsdemocracia/a-ditadura-financeira-e-as-metropoles-cercadas/

Série The Family (Netflix)

Livro: Guerra dos Lugares Raquel Rolnik,2017

Organização das Nações Unidas

17 objetivos para transformação do nosso mundo – https://nacoesunidas.org/pos2015/

Filme: Sérgio, 2020 (Netflix)

Manifestos/Artigos

Livro: Ailton Krenak – Ideias para adiar o Fim do Mundo, Companhia das Letras, 2019

Elogio da metamorfose. Artigo de Edgar Morin https://www.ecodebate.com.br/2010/01/12/elogio-da-metamorfose-artigo-de-edgar-morin/

Liberte o Futuro https://brasil.elpais.com/brasil/2020-07-05/liberteofuturo.html