Inter-Ação Profissional

Não há nenhum privilégio de uma dessas disciplinas em relação a outra. Cada uma delas é criadora.

― Gilles Deleuze

Por esses dias estamos desenvolvendo uma série de atividades, Inter, Multi, Pluridisciplinar, porque o trabalho social sem esses diálogos é inviável. Em qualquer temática que a gente escolha atuar lidaremos com profissionais e saberes de outras escolas, aliás, o nosso currículo na universidade é formado por uma somatória de disciplinas de humanas.

A interAção acontece na saúde, na educação, nas empresas, nas organizações de terceiro setor, nos movimentos sociais, na previdência, no judiciário etc. Em cada área somamos saberes e experiencias especificas, e no campo das políticas urbanas, destacando a área de habitação, nossa ação dialoga especialmente com arquitetos, engenheiros e advogados.

Tive a sorte de conhecer muitos desses profissionais com o olhar sensível a questão social, mas também encontrei em diversos momentos, profissionais voltados a cumprirem metas e cronogramas, independente dos impactos nas comunidades.

Acredito são vários aspectos a serem observados, e nesse texto vou destacar: a falta de sensibilizar todas as profissões, para lidarem com situações que envolvam pessoas em situação de vulnerabilidade. 

Sem a humanização em qualquer profissão, fica difícil explicar ao engenheiro que ele não pode passar uma régua em cima do mapa, e definir que uma parte do território receberá uma grande intervenção, explicar que cada uma das famílias dentro daquele território tem uma historia de vida, que ali existe relações de vizinhança, de afetos, de vida. Então, não se demarca uma área e elabora um cronograma de obras, sem primeiro compreender qual a dinâmica daquele território, o que significa esse empreendimento para a população local, se essa é realmente a melhor ou a única opção.

A mesma situação se aplica aos advogados, quando não conhecem, ou não reconhecem o Estatuto da Cidade, e não compreendem o que é Função Social da Propriedade, tendo o código civil e o direito à propriedade como a máxima lei.

Quando se trata de arquitetura sem o olhar social, é só observar a qualidade dos conjuntos habitacionais projetados para os mais pobres, os equipamentos em territórios populares, a economia não só de recursos, mas de criatividade.

Os velhos pré-conceitos tão bem arraigados, há um tempo, dando uma aula sobre regularização fundiária em uma turma de arquitetura, fui questionada por alguns alunos qual era a lógica de investir recursos com populações que não sabiam valorizar o estético, e não fariam uso ou manutenção adequada, confesso que foi um pouco  assustador ver jovens com esse pensamento.

Ressalto, que em toda oportunidade nas quais encontrei profissionais focados no resultado (Atenção: se você vai ter foco somente em resultado, não tem como dar atenção as outras dimensões das atividades), me posicionei e busquei relações dialógicas e construtivas, nem sempre teve acordo, mas garanto que ganhei muita experiência em lidar com essas pessoas.

Mas como eu comecei dizendo, nesse caminho de interAções, conheci muitos profissionais de outras áreas que somaram não só conhecimento e experiência, mas esperança, de que podemos interagir, dialogar, construir. Cada um desenvolvendo sua técnica de forma humanizada, compreendendo que habitação significa pessoas, afetos, vida, e que direito a morar, é também direito a viver… Enfim, são essas pessoas que vocês tem visto trazendo aulas e informações no projeto MultiplicAção Social, interagindo com todos nós que afinal buscamos um mesmo objetivo: Contribuir para a construção de um mundo melhor!