Metodologias Integrativas e Trabalho Social

Esse tema me despertou a atenção há alguns anos, e desde então venho buscando aprender mais, aqui faço um ensaio para conectar as metodologias integrativas com o nosso Trabalho Social. O agravamento das condições sociais das populações mais vulneráveis, deixa cada dia mais em evidência a urgência por atuarmos em prol do acesso universal a cidadania, para além dessa cidadania formal na qual temos direito a voto e consumo (o segundo de acordo com a renda).

Não vou reproduzir aqui o enunciado que todo profissional da área social conhece, sobre a  promoção da emancipação cidadã, da democracia participativa e todos os mecanismos que temos utilizado em nossas ações diárias com alguns avanços em dados momentos e muitos retrocessos, acabamos de assistir uma mudança de governo que desmobilizou e desmontou uma série de arenas participativas, mostrando qual frágil são nossos processos participativos e como é simples desmonta-los.

Nossa experiencia com os processos democráticos, indicam que as metodologias racionalizadas e técnicas deixam rupturas entre os diversos atores sociais que se propuseram a participar dos espaços formais, oportunizando  retrocessos sempre que há mudança na correlação de forças políticas, ou seja, as decisões e encaminhamentos de pautas como a inclusão social, podem ser tomadas em função de interesses que nada tem a ver com a inclusão social em si, ou com o  enfrentamento das desigualdades pautadas nas políticas, programas e projetos, a maioria dos atores sociais presentes nas arenas não defendem direitos e sim privilégios e manutenção do status quo (SANTOS:2001). E mesmo quando se defende direitos,  pode haver ganho sem resultado, como no caso da política habitacional que após anos de disputa de diversos seguimentos sobre a forma de aplicação de recursos dessa política, o mercado capturou tudo, ou quase tudo se considerarmos que foram destinados 2% dos recursos do PMCMV para os seguimentos dos movimentos sociais.

Esse cenário é desanimador, e desperta aquela sensação de que mais uma vez fomos convencidos de que a participação social traria alguma mudança, nós e em especial as populações mais vulneráveis, voltamos a desacreditar em possibilidades de mudanças.

Precisamos olhar nosso aprendizado das últimas décadas e refletir sobre o que pode ser melhorado, ajustado e transformado para que possamos construir iniciativas de participação baseadas em transparência de interesses, respeito e responsabilidade coletiva. Ou seja, romper com a lógica de um sistema participativo patrimonialista, clientelista e assistencialista que “desincentivam o envolvimento participativo de qualquer cidadão”. Segundo Gianela; Batista (2013) a discussão das metodologias integrativas está nesse ponto na “construção de novos sujeitos públicos, sujeitos autônomos, empoderados e capacitados para contribuir para a mudança das regras.”

Essa mudança de regras, requer uma mudança de visão de mundo e a suspensão da ação automatizada, é difícil tratar de uma ferramenta que está fora do paradigma dominante do qual estamos tão habituados a receber nossos roteiros e objetivos para nossa atuação profissional. E ainda mais sugerir que nós profissionais da área social comecemos a levar essas ferramentas para os espaços nos quais convivemos, desde sempre, com os individualismos nosso de cada dia, representado bem por esse ditado baiano “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Podemos começar com o exercício de nos reconhecermos como parte dessa sociedade, a qual construiu o cenário que estamos vivendo nesse momento, e partir daí reconheceremos que podemos escolher construir um outro cenário. Esse exercício por si só, tem seus desafios, vamos dizer que não legitimamos esse sistema, vamos enumerar tudo que somos contra, vamos resistir ao fato de que somos todos dotados de experiencias e saberes construídos a partir de nosso contexto de vida, que integra pensamentos e sentimentos. E a partir do nosso olhar, como individuo único fazemos escolhas, portanto o respeito ao próximo precisa urgente ser trabalhado, vamos resistir ao fato de que nosso distanciamento e fragmentações mil, servem a interesses de um grupo que domina melhor no caos.

Mas de repente podemos começar a explorar outras hipóteses, talvez a partir de um olhar integrativo sejamos capazes de reconhecer como legitimas todas as diversidades presentes em nossa sociedade, talvez possamos nos trabalhar uma dimensão dialógica que construa laços e mobilizações em torno dos valores humanos da solidariedade, cooperação, justiça, respeito à diferença, democracia participativa e zelo com a vida.

Após explorar esse contexto, no qual podemos nos conectar com aqueles que tem ressonância com os princípios humanos que defendemos, talvez possamos construir acordos em torno da defesa desses valores e esquecer por um momento as disputas sobre o que ou quem é mais importante, mais forte, mais frágil, mais vulnerável. Focando em uma mobilização que reconheça todas as bandeiras como justas, e que estrategicamente mobilizadas possa gerar uma potência capaz de enfrentar o cinismo do toma lá dá cá, a disputa do poder pelo poder, e todo tipo de corrupção arraigada em nossa sociedade.

Você consegue pensar em uma sociedade na qual ninguém passe fome? Na qual todos tenham um habitat saudável e acesso à educação, saúde, trabalho, cultura e lazer? Sei que para esse momento é uma visão utópica, mas se não formos nós a despertarmos essa visão de mundo, quem será? e se não agora, momento que estamos atravessando essa crise de valores humanos, crise sanitária e crise econômica, quando?

Há uma janela de oportunidades aberta, não deixemos passar esse momento, há muito a ser dito sobre as metodologias integrativas e como podemos desenvolver no trabalho social, não será possível nesse artigo, o nome da metodologia já diz do que se trata, atuar na integração das diversas dimensões do ser humano, diminuir essa distância cognitiva que vivemos entre nosso discurso e nossa ação. Deixo aqui algumas dicas para nossa abordagem teórico metodológica:

Construção dos projetos sociais de forma participativa considerando os saberes locais, a diversidade, memórias, identidade e sustentabilidade das ações junto as comunidades; Integração da dimensão interdisciplinar nas ações; Atuação e mediação com metodologias integrativas que estimulem o diálogo, o reconhecimento e respeito as diversidades e que fortaleçam as capacidades de escuta e falas integradas (MOURA:2013); Desenvolvimento de metodologias inclusivas, que incentivem a criatividade, os talentos locais, a participação, o senso de pertencimento.

Referências:

M. In: Encontro com Milton Santos. O mundo global visto pelo lado de cá. Direção Silvio Tedler. 2001.

Moura, M. S.  Metodologias Integrativas: Abrindo Novos Caminhos para a Criação Coletiva na Gestão Social. RIGS. set./dez. 2013 v.2n.3 p . 179-188 ISSN: 2317-2428 www.rigs.ufba.br

Giannella. V; Batista. V.L. Metodologias Integrativas: Tecendo Saberes e Ampliando a Compreensão. RIGS. s e t . /d e z . 2013 v.2n.3 p . 83-108 ISSN: 2317-2428 www.rigs.ufba.br