Novo ano, novos paradigmas…Será?

“Vivemos esperando

Dias melhores

Dias de paz, dias a mais

Dias que não deixaremos

Para trás…” Rogério Flausino

Sobrevivemos a 2020, Ufa! Mas, continuamos (sem prazo definido) vivenciando a travessia desse momento histórico insano, e mais do que nunca, para além de uma política social inclusiva, precisamos urgente de uma política de cuidados, conosco, com nossos pares, com a população que atuamos.

Esse não é um texto de ano novo, dessa vez a mudança de data no calendário gregoriano fez pouca ou nenhuma diferença nas nossas rotinas e protocolos em meio à crise sanitária que atravessamos. 2020 foi um ano surreal na história de toda humanidade, não há o que se penalizar pelos projetos revisados, suspensos ou mesmo cancelados… não vejo grande diferença para 2021, continuaremos na mesma tempestade, só que aos poucos, estamos nos acostumando com as turbulências.

E falando em se acostumar me vem aquele texto: “Eu sei, mas não devia” de Maria Colasanti, “a gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito.”, e assim, nas últimas décadas fomos nos acostumando as injustiças, a exclusão, a violência…atualmente estamos nos acostumando aos conflitos da polarização, aos ataques à democracia, às falsas notícias e todo tipo de manipulação, vamos nos acostumando para nos poupar, para poupar a vida, que com isso tudo vai se gastando.

Esses dias li textos excepcionais, um de Ailton Krenac que chama atenção para o cuidado com o planeta, a questão ambiental, ele afirma que se continuamos no processo de dominação humana predatória, em guerra contra tudo que de alguma forma possa ameaçar nossa visão antropocêntrica de mundo, a terra como um organismo vivo em mais tempo ou menos tempo se livrará de nós, outros vírus continuarão chegando…

Então, vejamos esse paradoxo, vivemos em um sistema absolutamente colaborativo que é a natureza, no qual qualquer célula que queira crescer de forma não saudável e colaborativa, é considerada um tumor, e nós a humanidade nos comportamos exatamente ao contrário da natureza, na nossa sociedade premiamos os egoístas, os que disputam, os que dominam, exploram… Um sistema doente no qual nos acostumamos com os massacres de povos, a corrupção, o preconceito, a ganância, a violência,  tudo pelo lucro, pelo poder, e, mesmo agora passando por essa pandemia, assistimos com tristeza aqueles que buscam tirar proveito da tragedia em prol de seus interesses.

Me chamou atenção nessas diferentes leituras foi o apontamento em comum, de que só existe futuro a partir da mudança de paradigmas, nas palavras de Castells “Nem nossos extraordinários avanços científicos e tecnológicos conseguem nos salvar da nossa imensa estupidez. Por isso, se sobrevivermos, não voltaremos ao mesmo. E, se voltarmos, a pandemia vai retornar, a mesma ou outras, até que ocorra um reset daquilo que éramos.”

E por falar em reset, abro um parêntese para informar que, em 2021 possivelmente vamos ver mais essa palavra, pois, o Fórum Econômico Mundial (“Davos”) proporá o “Grande Reinício”, ou “Great Reset”, a partir da avaliação dos impactos da pandemia nas economias. Não pretendo discorrer sobre esse tema aqui, só quero frisar que trata-se de uma iniciativa corporativista (é uma cúpula formada por governos e corporações com interesses bem definidos, que há séculos exploram economicamente a humanidade), e agora vem com a narrativa de uma janela de oportunidade para mudar o futuro global por meio de um novo contrato social (https://www.weforum.org/great-reset), penso que precisamos estar atentos às ações propostas, analisar, questionar, acompanhar de perto o que está sendo proposto para o futuro e como as populações serão afetadas.

Mas, voltando a Castells, o maior reset e mais importante nesse momento, é aquele que está acontecendo nas nossas vidas, é compreendermos o que é importante para nós, o que realmente precisamos para começarmos a nos constituirmos como uma comunidade, o que tem valor para cada um de nós, na nossa vida, sejam nossos afetos, nosso trabalho… aquilo que ninguém pode nos tirar e pelo que vale mais a pena morrermos abraçados do que vivermos atemorizados, até porque, o medo tem sido disseminado com um fato de manipulação,  para que continuemos nos dividindo e  no enfraquecendo, especialmente na polarização de ideologias mofadas, que sequer fazem parte do novo paradigma de dominação que começa a se desvelar (vejam as propostas do Fórum de Davos).

Enfim, não dá para seguirmos terceirizando a responsabilidade que cada um de nós temos sobre o cenário que estamos vivenciando, se quisermos de verdade estabelecer a política de cuidados entre nós e com a natureza, cada um terá que dar sua contribuição na quebra do paradigma vigente, terá que fazer sua parte para colocar um fim a essa hipocrisia social e institucional.

E, se você me perguntar como, eu digo, não tenho uma receita, mas comece por você, comece por se desacostumar com o cenário no seu entorno, para de esperar heróis, políticos, salvadores, estude, leia, busque formas de ser cada vez mais assertivo por meio de seu trabalho, ajude a melhorar a qualidade de vida das pessoas que estão no seu caminho, experimente ser crítico sem ser juiz, experimente não usar seu tempo e energia para conflitos que não tenham nada de construtivo, aprenda a observar as suas qualidades, se parabenizar pelos seus acertos e reconhecer/aprender com seus erros, antes de acolhermos aos outros, precisamos aprender a nos acolher.

O passado não voltará, o futuro é incerto, então o que podemos fazer é valorizar a vida nesse momento, nos mantermos firmes na construção de utopias experimentais nas nossas escalas, nos multiplicarmos e construirmos redes na ação social consciente e, finalizando, nas palavras de Edgar Amorim, vamos: “…resguardar o que há de resistência, valores universalistas, humanistas e planetários, guardá-los enquanto preparamos tempos melhores.”

Vou deixar os links dos textos que citei para você, boas reflexões!

https://www.culturagenial.com/eu-sei-mas-nao-devia-marina-colasanti/
https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/06/seguimos-como-sonambulos-e-estamos-indo-rumo-ao-desastre-diz-edgar-morin.shtml
https://valor.globo.com/financas/noticia/2020/06/03/frum-de-davos-2021-vai-propor-grande-reincio.ghtml
https://www.weforum.org/great-reset
https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/the-great-reset-se-ao-menos-fosse-so-uma-conspiracao/