Pedagogia da Solidariedade

Há exatos dois meses entramos na quarentena como uma medida para o enfrentamento da COVID19, muitas coisas aconteceram nesse período, no primeiro momento medidas para o recolhimento individual e de familiares, e logo começamos a nos questionar, e aqueles que não tem família, que não tem casa, ou que a casa não é adequada? E os vendedores informais? E os que já possuem outras fragilidades de saúde? e os que estão nos abrigos, em hospitais, os reclusos? Como ficaremos todos nós?

Acredito que há muito tempo não parávamos para pensar em nós, em nós como seres humanos que navegamos nas mesmas águas turbulentas, embora as condições de navegação sejam extremamente desiguais.

Os indignados mais estudiosos, já buscaram dados e perceberam que a conta da desigualdade é pura perversidade, mais de 7 milhões de unidade é o déficit habitacional, quando quase 6 milhões de imóveis encontram se fechados, subutilizados. O PMCMV produziu mais de 4 milhões de unidades e após 4 anos o déficit que em tese deveria ser reduzido, tinha aumentado. Desde 1960 se tem investimentos nacionais e internacionais em saneamento básico, difícil encontrar a cifra aproximada, no entanto as redes de esgoto atendem a margem de coleta de 66% das casas brasileiras, e tratamento próximo a 50% do que é coletado.

Podemos falar de qualquer política pública, que veremos as mesmas iniquidades, a mesma fórmula de se produzir e aumentar desigualdades, a questão da moradia e de saneamento são prioritárias devido as necessidades de isolamento social e higiene para o enfrentamento da pandemia.

Tudo isso é público e notório, e não é nada recente, e nesse artigo não quero me aprofundar nesse ponto. Quero falar da força que emerge de nós quanto brasileiros, quanto cidadãos, quanto humanos, e como rapidamente conseguimos organizar redes de solidariedade para atender as pessoas em situação de maior vulnerabilidade. E eu defendo a ideia de que se podemos nos organizar em redes de solidariedade, também podemos nos organizar em redes de cidadania.

Há alguns aprendizados desse período que quer partilhar com vocês;

  1. Solidariedade requer responsabilidade

Estamos todos lidando com nossas inquietações e dores individuais, estamos vendo a dor do mundo e queremos uma cura para tudo e  logo sair disso, nesse contexto, corremos o risco de nos comprometer com muitas coisas e não termos energia para cumprir nossa palavra, criando conflitos em coletivos e frustrações pessoais. Então mais uma vez quero chamar atenção nesse ponto, antes de assumir responsabilidades e atividades tenha certeza de que está dentro de suas possibilidades.

  • Falar menos, fazer mais.

Sabemos que a situação tem sido difícil, mas precisamos de uma vez por todas, deixar de ter discursos e assumir as nossas posições, grande parte da nossa situação quanto sociedade vem dessa hipocrisia histórica, de querer ser aplaudido, falar coisas bonitas para ser aceito em seu meio, defender a igualdade e justiça social, mas não conseguir ser proativo e nem mesmo ativo. Possivelmente muitos não vão gostar do que vou dizer, mas eu preciso dizer, se passa mais tempo elaborando desculpas e justificativas para não fazer, do que para ir e fazer. E sim, quando fazemos há reclamações e quando não fazemos também, a única diferença é que quando não agimos podemos culpar quem agiu. Será muito mais produtivo quando passarmos a sermos claros em nossas posições, assim, podemos saber com quem contar para o que, e poderemos realmente ter ações construtivas.

  • O passado é pedagógico e não um obstáculo para o futuro

Sou uma estudiosa, e como tal, gosto de pesquisar o passado, a história, buscar respostas aos meus questionamentos, e assim poder partir do acúmulo de experiências erros e acertos para a atuação no agora com intenção de buscar um futuro melhor. No entanto, vejo que quanto sociedade, estamos em looping repetindo os mesmos erros em todas as políticas, e uma das coisas é esse foco nos equívocos e nas frustrações do porquê foi assim e não de outro jeito. Em todas as reuniões, seminários, visitas, atividades, o foco está em tudo que não deu certo e na busca por responsáveis. Precisamos urgente, aceitar que o passado não volta, exigir que a justiça cuide dos que cometeram crimes contra a sociedade, e voltar o nosso foco no que realmente é possível fazer agora, para construirmos um futuro diferente. Que seja definida pedagogicamente que até 30% do tempo das atividades possa ser usado para pontuarmos questões passadas que não devem se repetir mais no âmbito da construção de uma sociedade com justiça social, e os outros 70% definindo ações e responsabilidades.

Vamos falar mais sobre isso em outras oportunidades, para encerrar quero dizer que precisamos aprender a manter a esperança sem tirar os pés do chão, manter esse potencial de empatia que mostramos ao nos organizarmos em dezenas de redes de solidariedade em todo país, nos mobilizarmos para cobrarmos medidas ao Estado, de curto, médio e longo prazo para que a dignidade humana chegue a todos os brasileiros, e não deixar de sonhar com esse dia em que o sol da justiça social brilhará para todos nós.