Resistência? Resiliência? Ou os dois?

Primeiro é importante saber a diferença desses dois conceitos, resistência, vem do ato de resistir, de reagir, e a resiliência vem da capacidade de adaptar-se as mudanças e ao mesmo em que se persiste na essência do que se busca, mesmo sob pressão.

O contexto atual, com fortes ameaças a democracia, intensifica os processos de resistência, no entanto, com o passar dos anos viemos nos dividindo e fragmentando na defesa de muitas causas estruturais como racismo, sexismo, intolerância religiosa, etc (todas justas), mas a divisão gera conflitos e excessos de radicalismo, de hostilidade, de instabilidade, e com isso,  perdemos o foco da construção social com direitos universais para todos. E, enquanto estamos ocupados, disputando entre nós, seja o que for, seguimos como ovelhas, mantendo o sistema de dominação e suas agendas perversas.

Um tempo de heróis nunca foi tão necessário, com a desinformação em massa, as fake news e as ameaças a liberdade, e no entanto nunca ficou tão claro que não há e nem haverá heróis, ou uma mudança repentina de governo ou de leis que divinamente inunde a ética a todos nós, que mudem nossos preconceitos, que moldem nosso caráter, que nos traga cordialidade, solidariedade, união e quiçá possamos começar a evoluir como sociedade.

Então, eu ouso continuar dizendo que o caminho é a construção colaborativa e coletiva, a construção de uma base resiliente que não se divide, que compreende que todas as causas são justas, e todos indivíduos tem o direito de defender o que considera justo, mas de uma forma a construir estrategicamente, em uma única plataforma, uma somatória de forças.

A dimensão colaborativa demanda muita resiliência, pois precisamos primeiro aprender a ouvir, aprender a dialogar, aprender a deixar de lado nossa intolerância com todos que pensam e agem de forma diferente da nossa, precisamos nos colocar como iguais respeitando nossas diferenças, e aí começam todos os problemas de ordem cognitiva, psíquica, emocional e educacional, pois fomos condicionado a competir,  a nos sentirmos mais fortes quando ganhamos, a julgar e resistir a tudo que for desconhecido ou diferente.

Essa resistência não é aquela que faz uma cultura prosperar mesmo enfrentando um forte processo de globalização, essa resistência é a que nos fazem cegos diante do incontestável, não há mudanças que possam vir sem a nossa articulação como seres humanos, e não há articulação sem nos reconhecermos como iguais, e não há como nos reconhecermos como iguais sem respeitar nossas diferenças. Pode parecer uma equação complexa, mas se trata simplesmente de trazer para a ação cotidiana, os princípios que estão nas nossas leis e nas nossas narrativas, da igualdade, justiça social, liberdade, dignidade.

Então se trata primeiro de nos percebemos com parte desse contexto, refletir sobre as questões globais como as causas da pobreza e das devastações ambientais, e as questões mais próximas a nós, e como podemos por meio da nossa ação diária  nos responsabilizarmos por buscar a mudança que queremos.

Individualmente é preciso estar disposto a reconhecer e tratar dos nossos problemas pessoais, pois a forma que lidamos com nós mesmos, reflete a forma que lidamos com os outros e com o mundo.

Depois precisamos nos aproximar de outros, quebrar a acomodação (nossa e do outro), dialogar, ouvir, dar aulas, promover encontro entre vizinhos e coletivos com os mesmos objetivos, trabalhar o desenvolvimento de uma cultura de paz, fortalecer os valores da solidariedade, o respeito, e da tolerância, enfim, colaborar com a educação dos outros.

Podemos também organizar eventos com fins educativos em relação a paz, ao meio ambiente e a sociedade. Participar de organizações voltadas à saúde pública, à inclusão social e à ecologia.

A base para a construção de novos coletivos de cidadania, como já dito, é o respeito ao outro, independentemente do nível social, da cor, do sexo ou da religião. Ter clareza que os outros pontos de vistas vêm das diferentes experiencias e perspectiva e que não precisamos concordar, mas precisamos respeitar as diferenças.

Enfim, nossas resiliências e resistências individuais fazem a diferença nessa construção social a qual estamos inseridos e são a chave para as mudanças estruturais tão almejadas.