Responsabilidades, limites e perspectivas na construção de coletivos

O desejo de transformação social nos move, de uma forma que em dados momentos nos vemos envolvidos com diversas frentes e grupos, articulando todas as nossas energias e assumindo responsabilidades com projetos de construção de um mundo melhor.

Temos uma urgência da transformação social, mas queremos fazer isto sem a maturidade de reconhecer nossos limites e os dos outros na construção coletiva. Estamos vivenciando os desdobramentos da desigualdade social nessa crise sanitária, não temos ideia de quanto tempo viveremos o legado dessa pandemia, meses ou anos, Sabemos que a vida precisa mudar, que a organização comunitária nesse momento tem se mostrado de extrema importância para as ações emergenciais, pode vir a ser, no futuro próximo, a base para a mudança de rumo do Estado neoliberal que vem esvaziando as políticas públicas e avançando no projeto de Estado Mínimo, enquanto dissemina um perverso processo de fragmentação no qual nos debatemos de forma fragmentada em busca de soluções. Como seres humanos e como cidadãos estamos sentindo necessidade real de rever esse sistema e rever nosso modo de viver e de se relacionar.

Engana-se quem acredita ser possível dissociar seu processo de transformação pessoal da transformação social, das responsabilidades consigo mesmo das responsabilidades assumidas em grupos. Ser agente de transformação social requer que o sejamos em todos espaços, o comprometimento é antes de tudo, consigo mesmo, e é preciso ter convicção de que somos parte da mudança e que nossas ações compõem um movimento muito maior, é preciso ter clareza das nossas habilidades e do tempo que dispomos, antes de assumirmos responsabilidades nos coletivos.

A ação emergencial de apoio aos que estão vulneráveis é real e necessária, passamos as duas últimas décadas construindo milhares de espaços, grupos, conselhos de participação democrática nas políticas sociais e nas políticas públicas, sem, no entanto, avançar nas nossas capacidades de se relacionar. Como resultante vivemos cansados de reuniões e atividades dos grupos que participamos e quase sempre impacientes para dialogar ou ouvir.

Outra questão a superar é a necessidade de cobrar de forma conflituosa a ação do outro, há pessoas que não compreendem a importância do comprometimento e responsabilidade junto aos coletivos que participam. E é a partir da  dimensão dialógica que vamos incluindo aqueles que assumem além do que podem realizar, por vezes, pela ânsia de contribuir ao máximo,  diálogos para que se percebam como parte nessa construção, ou até, para que se afastem e possam repensar suas contribuições e projetos.

Ressaltando que todos nós somos um sistema complexo, formado por nossos saberes e viveres, assim cada um tem uma experiencia, e nossos pontos de vista são formados por essas experiências, precisamos parar de acreditar que nossas causas ou justificativas são de alguma forma mais importante que as dos outros, ou que nosso empenho é melhor, ou que nossas tarefas são maiores. Não há pessoa mais importante que a outra nos grupos! Obviamente há pessoas com mais experiência ou expertise em certos assuntos, o que não significa saber absolutamente tudo sobre alguma coisa, e estar aberto a ouvir o ponto de vista de outras pessoas podem trazer ideias incríveis e simplificar processos, isso faz parte de uma construção espiral coletiva.

Há algum tempo venho falando da importância de trabalharmos os valores da autonomia e autogestão para emancipação cidadã, e de coletivos, certamente é a base para um trabalho social com a perspectiva da construção de uma sociedade equitativa. Mas antes de traçarmos nossos projetos com os diversos coletivos e dimensões da ação social transformadora, trabalhemos com nossa transformação pessoal, treinemos acolher a todos que estão em nosso entorno, treinemos respeitar nossos limites antes de nos comprometer com diversas tarefas, treinemos respeitar as coisas obvias dos coletivos que participamos, como o tempo de fala, as opiniões alheias, treinemos discordar com respeito, enfim, treinemos colocar nosso discurso ético profissional na prática em todas as nossas atividades.

As boas relações vão fazer a diferença no mundo, nós como agentes multiplicadores da ação social temos uma grande missão junto as comunidades, e precisamos começar tendo a clareza do que acolher e trabalhar em nós mesmos, e que em alguns momentos é imprescindível dar uma pausa e refletir sobre como colocarmos nosso conhecimento, capacidades e ética na construção de relações, que venham substituir aquelas pautadas nas necessidades de cumprir agendas e protocolos,  por outras que se pautem na construção de coletivos cidadãos em prol de um mundo com justiça social.