Sou assistente Social, e agora?

Nunca esqueço o dia em que me matriculei na Faculdade de Serviço Social da UNESP em Franca- SP, lembro de ter chegado bem cedo com um envelope de documentos na mão e o coração cheio de ansiedade para cursar a universidade. Na conversa com o pessoal do Centro Acadêmico, fiquei sabendo um pouco mais sobre o funcionamento da faculdade e comprei uma camiseta com uma frase de uma música de Caetano Veloso: “Gente é pra brilhar, e não pra morrer de fome”. Nunca esqueci essa frase.

Durante o curso íamos desvelando as dimensões das injustiças sociais e todas iniquidades do nosso sistema, dia a dia em cada em cada disciplina os diversos vieses dos porquês ainda é mais fácil morrer de fome, do que brilhar. Me graduei no final da década de 90, e no meu primeiro estágio com comunidades passei a me conectar com essa dimensão do Serviço Social, do trabalho social com organizações no âmbito das questões urbanas, e perceber que eu realmente tinha habilidades para essa área.

Naquele momento os temas de assistência social e saúde ocupavam os espaços centrais das discussões da profissão, até pela aprovação da Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS que estava no centro dos debates, e eu me sentia um pouco perdida buscando aprender como atuar com a questão urbana em meio a tantas atividades curriculares e extracurriculares voltadas às questões da seguridade social, o encontro com o Centro de Planejamento e Extensão Universitária de Serviço Social – CPEUSS/UNESP fez toda a diferença na minha jornada.

Tenho que dizer que após a conclusão do curso passei por  um momento desafiante, no início dos anos 2000 o país passava por um processo de retração econômica, poucos empregos, altíssimas exigências, como recém formada não tive sucesso em atuar na área, passei o meu primeiro ano de formada atuando em áreas diversas e buscando oportunidades, tive o meu primeiro trabalho como profissional assinando como técnica social em 2002 em um processo de mutirão, e depois disso não parei mais de atuar com trabalho social em intervenções urbanas.

Passei os últimos vinte anos em campo atuando em uma diversidade de projetos no âmbito das políticas setoriais urbanas e ambientais, em todos os meus trabalhos lembrava da frase “Gente é pra brilhar, e não pra morrer de fome”, buscando estratégias e formas de assegurar da melhor forma possível os direitos sociais. Em muitos momentos me percebi frustrada com os desdobramentos dos projetos, especialmente com o fato de que a saída dos técnicos sociais de campo, significa na maioria das vezes o fim das atividades, nós temos dificuldades em fortalecer a autonomia e autogestão.

E quando digo nós, não estou falando somente de nós profissionais, a população também se adaptou a esse formato de ter alguém na orientação, condução e mediação das discussões e ações em campo. Perdendo a potência rapidamente quando se retira o profissional do campo. Voltei em alguns lugares que atuei e que havia estrutura física e recursos com projetos de geração de renda, que se perderam com a ausência de um profissional para conduzir a gestão.

Recentemente, parei para uma reflexão sobre nosso projeto ético político e o que os princípios desse projeto têm refletido na nossa atuação diária, no enfrentamento das injustiças sociais, fiz perguntas a vários profissionais que atuam e percebi que há um distanciamento sobre o que defendemos no projeto da profissão, e o que produzimos em campo, o tema merece um artigo em separado.

Outra vertente dessa reflexão, tem a ver com como colocamos nossas habilidades nas áreas de atuação que escolhemos, nesse sentido percebi que ainda na faculdade teria sido extremamente útil ter vislumbrado os campos de atuação da profissão de forma organizada. Partindo da clareza, de que conectar as capacidades/habilidades individuais a área de atuação do profissional pretendida, também é uma forma de qualificar minha contribuição para a construção de uma sociedade justa.

Daí surgiu a vontade de organizar as áreas de conhecimento nas quais o profissional de serviço social pode atuar, e trazer algumas dicas sobre nossas capacidades e valores individuais que podem ganhar potência quando conectados com valores dos projetos com os quais escolhemos atuar. Associar em todas dimensões possíveis nossas ações com nossos valores, com os valores ético políticos da nossa profissão, com nossas habilidades quanto indivíduos e quanto coletivos, pra gente brilhar na transformação social!

Na sessão de ebooks você pode baixar gratuitamente Serviço Social: Campos de MultiplicAção, nele você verá que há um amplo leque de opções para atuação do profissional da área social, e que não para de crescer e se multiplicar.