Você já reparou que Boas Práticas não dão Ibope?

São tantos obstáculos para que as nossas ações cumpram com os princípios éticos da viabilização de direitos, que muitos profissionais acabam se rendendo ao conformismo.

Estabelecer uma rotina de boas práticas, pode ter um começo bem difícil, os obstáculos são muitos, mas com tempo e resiliência, criamos uma certa imunidade para conviver com a competitividade, o clientelismo e pressões diversas.

Então se você se sente isolado em uma equipe que vive em processo de disputa, se você está enfrentando um chefe que não conhece os programas e conduz a equipe em ações ineficazes e onerosas, se você está lidando com jogo de interesses políticos e pressões para a ação clientelista, seja qual for a situação de opressão e instrumentalização das dificuldades, compreenda que ao tomar consciência e refletir sobre esse cenário  você já escolheu não ser parte da reprodução desse legado sócio-histórico.

Sim, reconhecemos que há diversos fatores envolvidos nessa equação, e a repetição das mesmas práticas por séculos é uma delas, por séculos precisamos pedir autorização para a atuação social consciente. Nos autoriza ou não, aqueles que negociam com recursos públicos e resultados dos projetos sociais a partir de interesses clientelistas ou mercadológicos, a legislação não nos protege desses agentes, por vezes, protegendo-os de nossas constatações e relatos.

Mesmo que projeto ou programa com o qual estamos atuando, esteja resultando em melhoria de qualidade de vida, viabilização de direitos, acolhimento, ainda assim, pode não ser reconhecido internamente. No âmbito externo há poucos programas que divulgam e mesmo premiam boas práticas, a mídia e, portanto, a população, a ela alienada,  está sempre em busca de informações sobre algum ponto que possa ser considerado negativo por algum prisma, há um desejo humano mórbido em saber conflitos e buscar defeitos que Freud e Yung explicam em suas teses, por isso que a comunicação que prende atenção (que vende) é 90% pautada na violência e polarização. Não há espaço para dialogar e mostrar o que o uso correto de recursos das políticas públicas e sociais podem refletir na sociedade, para dialogar sobre cidadania, emancipação, desafios para aplicação dos recursos, transparência, justiça, governança, são todos temas que não dão ibope.

Então para você se manter na sua jornada de boas práticas tenha clareza desses três pontos:

  1. Crie imunidade ao conformismo, clientelismo e pressões;

É desconfortável, você será criticado por querer uma ação social coerente, e se começar a cumprir prazos assumidos, elaborar relatórios objetivos, atuar de forma dialógica com colegas ou parceiros do projeto, pode enfrentar até mesmo perseguição, depois de um tempo, você fica hábil em separar as coisas entre as que você tem influência e deve se posicionar, as que você pode dialogar e criar estratégias com apoio de colegas/gestores, e as situações que você deve neutralizar/se afastar para não investir seu tempo em reclamações e aquelas situações nas quais o melhor caminho é a ruptura, mudança, reinício… 

  1. Compreenda que vivemos no contexto de reprodução das relações de dependência;

Nem todo mundo está pronto para rupturas, entenda que são séculos de reprodução das mesmas práticas, para alguns a repetição é o caminho natural não há outras perspectivas, aprenda a discordar de forma respeitosa, sem querer convencer o outro de seu ponto de vista e a manter sua ação reflexiva e crítica.

  • Crie seus parâmetros de Boas Práticas;

Nos parâmetros gerais, Boas Práticas – no nosso campo as tecnologias sociais – devem se pautar na participação social, na adequação aos recursos disponíveis, devem ser replicáveis e sustentáveis no tempo.

Trazer esses conceitos para a prática cotidiana requer que que criemos nossos próprios protocolos de boas práticas, por exemplo disponibilização de informações das atividades sob nossa responsabilidade em formato acessível para equipe com atualização periódica; criar rotina com tempo na agenda para responder e dar encaminhamentos; propor encontros periódicos de trocas, estudos e reflexões; etc.; Se não houver espaço junto a equipe/gestão, crie seu protocolo de Boas Práticas com você mesmo(a) e junto as pessoas que você acolhe/acompanha/orienta.

Por fim, não menos importante compreenda que Boas Práticas também serão criticadas, é preciso compreender que não há como uma ação, projeto ou programa atender as expectativas de todos, dado que somos um coletivo formado por sujeitos sociais com olhares singulares, e ainda é preciso considerar que nenhum projeto é livre de obstáculos, de imprevistos, de excepcionalidades. A construção é perene, é um dia de cada vez, e apesar de todas as frustrações pelas questões que você acredita que poderiam ter sido melhores, você nunca saberá quantas vidas impactou, mas elas saberão.